[+18] Bom dia, Gabriel Cruz

Tempo de leitura: 3 minutos

[+18] Bom dia, Gabriel Cruz

Nota editorial: acreditamos que nudez, sensualidade, libido e pluralidade são discussões essenciais de nosso tempo. E que há espaço para tratar disso sem objetificar e ofender, mas sim valorizando toda a riqueza do masculino e do feminino. Para entender porque publicamos ensaios de homens e mulheres e saber mais sobre o que aspiramos para a série “Bom dia”, leia o que escrevemos cá. E se tem um tentativa que deseja publicar, fale conosco pelo contato@prazeresocultos.com.br .

* * *

Tirar a roupa não é fácil. Ainda que eu seja ator e que a exposição deste corpo porquê objeto de trabalho seja pressuposta. Ainda que o João seja um colega próximo em tal qual o trabalho eu confio profundamente.

Tirar a roupa não é fácil porque sou um corpo grande, referto de dobras e gordura, volumes, buracos, pêlos, estrias e trejeitos numa sociedade que preferia não me ver. Sou um corpo afeminado, viado e bicha. Por mais que essa seja minha força, é nesse corpo que eu carrego minha instabilidade. 

E nesse balaio todo, ainda veio a questão da drag. Comecei a me montar há dois anos e meio, e nesse tempo fui descobrindo que a Chica Didi é o melhor de mim e sua concepção estética é profundamente ligada à minha visão de mundo e às minhas questões com o corpo. Permanecer quatro horas na frente do espelho, se encarando de frente e repensando suas formas, suas cores, traços e proporções não deixa de ser um processo terapêutico para esse corpo-pessoa que não sabe ao visível seu lugar no mundo. É minha armadura de guerra, meu flerte com o grotesco para concordar o que há de excêntrico em mim.

No dia do tentativa, saí montada de morada, depois desse processo ritualístico de me maquiar. Pegar transporte público durante o dia sempre é uma loteria, nunca sei porquê vai ser a abordagem das pessoas. (À noite também, mas porquê criaturas noturnas, as drags geralmente têm maior validação depois do horário transcendente).

Nesse dia, entre os olhares assustados, reprovadores e negativos, tive sorte de recolher sorrisos e uma conversa em privativo que me deixou intrigado, no mínimo.

Passei alguns minutos conversando com uma senhora pra quem dei carona no guarda-chuva, e ela não cansava de ressaltar a formosura da minha maquiagem. O que é, enfim, o belo? Minha maquiagem, provocativa e fora do padrão das drags femininas, era bela? Meu corpo, portanto,poderia ser belo?

Ainda com essas perguntas na cabeça, tirei minha última peça de roupa em frente à câmera, ressabiado porquê uma rapaz acuada que não acredita que a injeção não vai doer.

Instagram do João Hannuch. 

Instagram do Gabriel Cruz.

​​​

 

​​

​​

 


publicado em 18 de Fevereiro de 2019, 00:00





Fonte: papodehomem.com.br

Aceitei meu lado gay | ID #61 – PapodeHomem

Aceitei meu lado gay | ID #61

“Venho de uma ensino na qual os homens não têm espaço e as mulheres são dominantes. E agora?”