3 décadas de trabalhos com homens e masculinidades

Tempo de leitura: 17 minutos

3 décadas de trabalhos com homens e masculinidades

É generalidade que chegue mensagens nas redes do PdH pedindo referências de trabalhos com masculinidades. São estudantes  desenvolvendo TCC, homens que querem encetar um grupo de homens e outros interessados em saber mais sobre o tema.

Muitos, inclusive, contam que nos veem uma vez que uma referência. Por um lado é muito lisonjeiro saber que o nosso trabalho tem ajudado o tema chegar em mais pessoas e que isso nos coloque uma vez que referência.

Por outro lado, para nós do PdH, também é da maior valor que as pessoas conheçam aqueles que vieram antes de nós, assim uma vez que outros trabalhos e referências que estão sendo feitos atualmente e que dão sustentação para o nosso teor.

O portal foi criado em 2007, mas nos anos 1990 havia professores, professoras, pesquisadores e ativistas que já estavam estudando questões de gênero e trabalhando com grupos de com homens para penetrar portas a masculinidades menos presa à “caixa do varão”.

Queremos que o nosso portal possa crescer uma vez que um “ponto de referência”, um farol que ilumina várias rotas de conhecimentos que vão muito além do nosso trabalho. Queremos falar sobre masculinidades apresentando trabalhos anteriores, pesquisas científicas, saberes comunitários e tudo isso de um jeito conseguível e compreensível para qualquer um que se interesse.

E qual nosso projecto para isso?

Além do trabalho que já fazemos, queremos também trazer entrevistas e grandes textos explicativos sobre o trabalho de nomes importantes para a transformação das masculinidades.

Vamos ao primeiro deles!

A referência de hoje é: Benedito Medrado

Benedito Medrado é uma das principais referências quando o tema é trabalhos com homens e sobre masculinidades no Brasil.

Professor Doutor Benedito Medrado

Formado em psicologia pela Universidade Federalista de Pernambuco, Benedito é também professor, doutor em psicologia social e pesquisador do GEMA (o Núcleo Feminista em Gênero e Masculinidades da UFPE), coordenando e colaborando com projetos nacionais e internacionais sobre masculinidades.

Mapeamento “Homens do Brasil 2020”

Em 2020, o Gema/UFPE, junto do Instituto PAPAI, IFF/Fiocruz, UFPA, UFMT e Margens/UFSC se articularam para realizar uma pesquisa inédita: mapear todos os trabalhos com homens que estejam sendo feitos no Brasil, seja focando na saúde do varão, paternidade, pluralidade sexual, enfrentamento da violência de gênero, arte cultura, entre outras possibilidades. 

Nascente mapeamento ainda está em curso e será da maior valor para entender o alcance e extensão dos trabalhos com homens e masculinidades além de permitir novas articulações. 

* * *

Não vamos nos atrasar em ostentar o currículo do Profº Drº B. Medrado, porque ao longo da entrevista ele mesmo vai falar, de um jeito muito mais interessante, sobre sua trajetória e sobre alguns pontos importantes do tema.

Índice

  1. O trabalho com masculinidades é um tanto novo ou recente? Quando começou?
  2. O que as transformações das masculinidades tem a ver com o feminismo?
  3. Os anos 1990 e a estruturação do trabalho com homens
  4. Benedito e a instalação de projetos nacionais
  5. Reunindo todos os trabalhos sobre masculinidades que tem sido desenvolvidos nacionalmente
  6. Estamos vendo florescer novas masculinidades?
  7. Criando uma coalizão internacional entre trabalhos sobre masculinidades
  8. Dos anos 1990 para 2020, o que mudou em relação aos trabalhos com masculinidades?
  9. A interseccionalidade em debate
  10. Incoerência entre privação e privilégio
  11. Podemos manifestar que existe um movimento de transformação dos homens?
  12. Os encontros virtuais podem potencializar o movimento?
  13. No trabalho com masculinidades, uma vez que você tem visto a intensificação do conservadorismo?
  14. Quais os principais desafios de expandir o trabalho com masculinidades hoje?
  15. Uma vez que você vê todo o trabalho que você realizou nos últimos 30 anos?
  16. Qual o sonho para perenidade dos trabalhos com homens e masculinidades?
  17. Para saber os trabalhos acadêmicos de Benedito Medrado

Apresento a você agora, Benedito Medrado:

O trabalho com masculinidades é um tanto novo ou recente? Quando começou?

Pensar, estudar e refletir sobre os padrões de masculinidades não é um “modismo” recente. O tema vem sido estudado e trabalhado há décadas e Benedito conta uma vez que sua trajetória se mistura à história deste movimento.

A minha trajetória nesse campo [estudo das masculinidades] coincide também com uma mudança da trajetória do próprio campo.

Intervenções com homens existem a mais de 30 anos (se você for pensar em atividades terapêuticas e atividades de grupos oferecidas em clínicas privadas em universal), particularmente no eixo sul-sudeste com psicoterapeutas e psicanalistas que trabalhavam com homens muito na perspectiva de uma demanda que vinha na clínica [de psicologia].

A demanda vinha da segmento de alguns homens que se sentiam incomodados com a vexame que o protótipo de masculinidade exercia na vida privada deles: na subjetividade, nas formas uma vez que ele lidava com o mundo e o os sofrimentos decorrente disso. 

O trabalho com homens era muito associado ao que a gente poderia invocar de uma certa crise, não das masculinidades, mas dos homens em relação ao protótipo de masculinidade. Se a gente for pensar na mídia, por exemplo, é na dezena de 80 que já começa discussão sobre novos modelos de varão, mas muito na perspectiva individual.

Há 30 anos detrás, era uma experiência clínica, pessoal, pessoal, de um perceptível sofrimento relacionado a um perceptível protótipo social que determinava o uma vez que deveriam ser os homens. Naquele momento, inclusive, isso acontecia quase uma vez que um revérbero do deslocamento que aconteceu em relação a posição das mulheres na sociedade.

O que as transformações das masculinidades tem a ver com o feminismo?

“O feminismo é o movimento social que inaugura essa discussão de feminilidade e consequentemente de masculinidade, uma vez que contraponto. 

De qualquer modo, se as mulheres saíram da vivenda, os homens passaram também a ter de repensar os seus lugares. 

O movimento feminista quebra o lugar das mulheres uma vez que sendo o núcleo doméstico/privado, pensando que as mulheres poderiam também ocupar a ordem pública uma vez que lugares de poder. Quase uma vez que consequência deste movimento os homens passam também a rever os seus lugares.

No meu caso, quando eu prelúdios a me aproximar desta temática [masculinidades] é por duas vias: eu entrei no mestrado ( na PUC-SP) em 1994. E em 1994, em Cairo, houve um evento internacional da ONU que foi uma conferência de população e desenvolvimento.

Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, no Cairo em 1994. Foto ONU

Em 1995 acontece a Conferência Internacional da Mulher, que foi em Pequim. Estes dois evento promoveram uma discussão que é de outra ordem. 

Enquanto antes (final da dezena de 1980 prelúdios da dezena de 1990) se pensava muito os homens a partir da experiência clínica, privava, a partir de 1995 a Organização das Nações Unidas vai manifestar um tanto assim: ‘olha precisamos pensar nos homens e nas masculinidades a partir de uma dimensão pública, não só da dimensão privada individual.’

Por exemplo, a gente tinha um número grande de casos naquela era de pessoas infectadas com HIV e ai os trabalhos todos de prevenção eram feito com as mulheres, raramente se trabalhava com os homens. Quando se trabalhava com os homens era exclusivamente com os homens considerados homossexuais ou gays. 

Ao mesmo tempo, outras questões relacionadas a saúde reprodutiva (planejamento familiar, a possibilidade do recta de resolver sobre a vida reprodutiva) era uma coisa que só se conversava com as mulheres.

Na conferência de 1995, a ONU começa a penetrar o espaço para dialogar: naquele momento você tem várias representações de diferentes países (tanto dos governos quanto da sociedade social) dizendo que a gente precisava pensar também formas de dialogar com os homens.

Pensando em saúde reprodutiva, por exemplo, se uma mulher tem a capacidade de reprodução que é cíclica (a cada mês é uma mênstruo e se inicia um ciclo de possibilidade de reprodução) com os homens, não. Os homens potencialmente teriam possibilidade de se reproduzir a cada transa. A pergunta que se fazia era:

Uma vez que é que a gente não conversa com esse sujeito?”

Os anos 1990 e a estruturação do trabalho com homens

Considerando as discussões colocadas pelas conferências internacionais, uma vez que isto impacta o movimento de transformação dos homens?

“A ECOS (uma organização não governamental que trabalha em São Paulo no campo da sexualidade), em 1996, monta um grupo dentro que era um grupo de estudos sobre sexualidade masculina e paternidade.

Portanto ela trazia uma possibilidade da gente pensar coletivamente essas questões relacionadas aos homens, não só a partir das iniciativas privadas, de clínica e psicologia, mas a partir de uma perspectiva político social. Era um grupo de pessoas que estavam interessadas em pensar, estudar e em propor ações relacionadas às masculinidades.

Em 1998 a gente lançou um livro, resultado deste grupo, que é o Homens e Masculinidades: outras palavras e oriente livro foi lançado em um evento que foi o primeiro encontro no Brasil de Homens e masculinidades dentro dessa perspectiva mais política e pensando tanto o privado quanto a dimensão pública.

Também neste evento, a gente lançou um livro e lançou um vídeo que era “varão.com.h” que também está disponível na internet. No vídeo era um varão que falava sobre essa crise relacionada a um protótipo de masculinidade e que estava necessitando de alterações de diferentes ordens: da cultura, dos símbolos, mudanças mais amplas.

As pequenas revoluções começam com as pessoas, mas as grandes revoluções não param ai, tanto que as mulheres no movimento feminista começaram com o grupo de reflexão e ampliaram: começaram a perceber que havia um ponto de partida que continua sendo muito importante a questão do empoderamento, da reflexão sátira das mulheres  mas que oriente deve ser o ponto de partida e não de chegada, por isso que elas foram pensar a inserção das mulheres no legislativo, no executivo, nos lugares de poder de um modo universal.

Quando eu prelúdios a trabalhar neste campo, estava fervilhando esta discussão, portanto toda a minha trajetória acabou se estruturando a partir desta leitura, que tem uma legado no feminismo. A partir daí a gente passa a desenvolver várias ações.”

Benedito e a instalação de projetos nacionais

“Em 1997 portanto, junto com o Jorge Lyra a gente fundou o Instituto Papai, que é uma ONG daqui de Recife que tem inserção vernáculo e internacional porque faz segmento de uma rede Latino Americana que trabalha com homens e masculinidades.

O Instituto também faz segmento de uma rede que labareda MenEngage, que é uma representação de uma rede global que discute também o trabalho com os homens.

Dentro do Instituto PAPAI, em 1997, o principal trabalho era sobre paternidade na mocidade, mas tinham mais outros projetos articulados. Eram os 4 eixos temáticos do projetos:

  1. Sobre violência de gênero
  2. Saúde do varão
  3. Sobre pluralidade sexual
  4. Sobre paternidade.

Em 2004 eu entrei para o corpo docente da Universidade Federalista de Pernambuco e a partir de portanto eu comecei a ampliar o trabalho  de pesquisa que a gente já fazia no Instituto PAPAI, mas que na universidade, através do grupo de pesquisa que é o GEMA (Grupo de estudos feministas de gênero e masculinidades) a gente acabou levando essa discussão a partir de projetos de pesquisa e de extensão, também.

Minha formação é em psicologia originalmente, e minha especialização é em psicologia social. Portanto as ações que a gente faz no Instituto PAPAI até hoje (Hoje eu não sou mais funcionário, me tornei voluntário mas continuo colaborando com o trabalho dele) é fundamentado no tripé pesquisa-formação-ações comunitárias.

Nas ações comunitárias a gente tem esse trabalho voltado para os homens através de grupos reflexivos, político-pedagógicos e de abordagem psicoterapêutica.”

Reunindo todos os trabalhos sobre masculinidades que tem sido desenvolvidos nacionalmente

“O mapeamento “Homens do Brasil 2020” vem um pouco nessa perspectiva de pensar quais são as iniciativas que existem hoje, em 2020 no Brasil, considerando pesquisa com homens e sobre masculinidades em diferentes abordagens.”

O levantamento estabelece 4 principais linhas de trabalhos com homens que serão mapeados: 

  1. Pesquisa com homens e sobre masculinidades em diferentes abordagens
  2. Formação e capacitação para trabalho com homens
  3. Linhas de mediação direta em campanhas comunitárias ou políticas públicas, por exemplo.
  4. Arte e cultura: produção de representações artísticas com literatura, música e outros, ou de uso da arte uma vez que forma de unir homens e repensar as masculinidades – uma vez que grupos de crochê entre homens e outras atividades.

“Na questão da arte e cultura, é impressionante uma vez que cresceu a produção das representações: tem desde produção literária, quanto por exemplo, oficinas de crochê pra homens.

Produzir a arte nessa via é também o que eu chamo de produzir as pequenas revoluções, que vão se juntando num campo maior de tensionamento e de produção de o que eu vou invocar de ‘outras masculinidades’.”

Estamos vendo florescer novas masculinidades?

“Eu não chamo de ‘novas’, porque muitas vezes elas já estavam cá, a gente é que não via, né? Portanto manifestar que é ‘novidade masculinidade’, isso a gente falava na dezena de 1980…

Na minha produção de mestrado eu analisei mídia e masculinidade. E a propaganda na dezena de 1970, nos EUA, já começa a trazer fortemente os homens para o cenário da cozinha. Que é quando as mulheres começam a transpor de vivenda, vai descolando oriente lugar e os homens tem que ir pra cozinha.

Nascente é o período que tem maior incremento da tecnologia na cozinha e não é por casualidade. E ai, nas propagandas, começam a manar essas associações das tecnologias com os homens na cozinha.

No Brasil as propagandas começam a mudar muito fortemente na dezena de 1980. Tem o Gelol que trouxe aquela propaganda ‘não basta ser pai, tem que participar’ enfatizando a teoria da propaganda masculina no zelo.”

Criando uma coalizão internacional entre trabalhos sobre masculinidades

“O MenEngage começou no Brasil a partir de uma iniciativa de 4 organizações: Instituto PAPAI, Instituto Promundo, ECOS, e uma organização Mexicana que labareda Salud Y Genero.

Essas quatro organizações montaram um material voltado para homens (jovens particularmente) em temas relacionados a paternidade, saúde mental, HIV, saúde reprodutiva e violências.

Esses eram os 5 temas e a gente produziu 5 manuais e um vídeo para poder facilitar o trabalho educativo. A partir deste material a gente começou a fazer formação e capacitação em dissemelhante países.

Começou no Brasil e depois a gente foi levando para outros países. A coordenação deste projeto era feita pelo Instituto Promundo, a partir do Gary Barker, que é um setentrião americano (a família dele é brasileira e hoje ele mora nos EUA). Hoje ele está na sede do Promundo, que eles abriram depois, em Washington, EUA.

Naquela era estes 4 institutos começaram a fazer capacitações. A gente foi pra América do Sul, depois para América Medial (Jamaica), ai fomos pra região asiática. Trabalhamos na Índia e começamos a fazer trabalhos em alguns países africanos. 

Esse processo de capacitação foi gerando o libido na gente de gerar uma rede que mais do que exclusivamente desenvolver material educativo, a gente pudesse gerar de vestuário um espaço que pudesse ser uma rede de encontro entre diferentes experiências

Em 2002 a gente organizou um encontro global no Rio de Janeiro (que foi exatamente com as primeiras pessoas que estavam pensando estas questões) e de lá pra cá esta rede foi se ampliando, crescendo, e hoje tem representações em diferentes países. No totalidade são 80 países e a medial da rede está nos EUA. Eu sou o coordenador vernáculo da MenEngage no Brasil.

Uma vez que ficou uma estrutura muito grande, a gente trabalha também com as regionais. Eu faço segmento da regional Brasil que integra a América Latina e o MenEngage Global.”

Dos anos 1990 para 2020, o que mudou em relação aos trabalhos com masculinidades?

“O que há de generalidade é a possibilidade de escuta dos homens. Ainda hoje, infelizmente, a gente tem dificuldade e a nossa dificuldade não é só a da escuta, mas também a dificuldade da fala. Porque a fala estimulada aos homens é a fala objetiva, o trabalho, a fala mais operativa do que reflexiva. 

Portanto, quando a gente abre um espaço os homens dizem: ‘até que enfim a gente vai poder falar sobre isso’ ou ‘ah essa é a primeira vez que eu estou falando sobre isso”.  Isso mobiliza muito os homens. 

Mesmo sendo uma coisa que já estamos fazendo há tanto tempo, ainda tem um caráter de novidade, o que significa que culturalmente a gente continua produzindo fórmulas de socializar os homens que afirmam esse protótipo medial de masculinidade. “

A intersecionalidade em debate

O que tem de novo é que os grupos estão começando a prestar atenção e entender que é necessário dialogar para além do próprio umbigo. Infelizmente as experiências originais eram quase uma vez que se fossem autônomas, uma vez que se tivesse nascido do zero, uma vez que se tivessem inventado a roda e de uma hora pra outra ‘agora vamos conversar sobre os homens’.

Acho que os grupos com os quais a gente tem conversado têm consciência da história e da urgência, inclusive, de estudar mais, de aprender mais sobre a luta feminista e a luta das mulheres. Eu também tenho visto nos grupos uma maior preocupação com, por exemplo, com tarifa relacionada ao racismo.

Quando a gente fala dos homens, a gente não pode ignorar que a principal justificação de morte e adoecimento dos homens ainda são as causas externas, tem a ver com homicídio, com violência, com acidentes de carruagem. Mas quando a gente vai olhar para a população de homens negros, a gente percebe que esse número é muito maior. É significativo.

Quando a gente olha para as prisões a gente encontra um provisório muito maior de homens do que de mulheres. São 97% de homens, mas dentro deste 97% de homens a grande maioria é de homens pardos e pretos. Estas questões do racismo também tem começado a manar nos grupos.

Tem uma novidade (que pra gente é novidade mas que pro mundo não é), que são as questões dos corpos trans. A possibilidade hoje de pensar a partir deste recorte entre cisgeneridade e transsexualidade tem aparecido também nos grupos.

Hoje quando a gente fala de homens a gente tem que lembrar que também têm homens que engravidam e que têm aparelho reprodutivo. É uma outra experiência de masculinidade que estão sendo incluídas neste campo.

Nascente é um novo repto: pensar os marcadores sociais da diferença.

Antes a gente pensava mais a questão de gênero do que estas questões de raça, de sexualidade, de identidade de gênero, de território, etc.

Por exemplo, nesta pesquisa vernáculo de avaliação da política de saúde do varão, a gente vem trazendo muito a questão do território para pensar. Neste grupo tem um pessoal do Pará e eles falam: ‘olha o sistema de saúde do Pará funciona muito a partir de transporte fluvial’. 

Portanto a experiência de masculinidade com a qual a gente vai estar lidando, quando a gente fala em saúde do varão, é da saúde do varão ribeirinho, da saúde do varão indígena, da saúde do varão que está em outros territórios além do território urbano. 

A novidade para mim é a possibilidade de ampliação do olhar para além do próprio umbigo, que é pensar que a tarifa que a gente precisa tutorar é a possibilidade de homens e mulheres terem os mesmo direitos.

Socialmente e culturalmente as mulheres denunciaram a sua requisito de vexame e a gente precisa entender essa requisito para poder falar sobre sofrimento de alguns homens em relação aos modelos e também compreender os privilégios. “

Incoerência entre privação e privilégio

“Esse também é um ponto que tem começado a manar mais nos grupos, essa incoerência entre privação e privilégio: os homens são os que morrem mais por violência urbana e também são aqueles que mais matam na violência urbana. Na violência de gênero, se as mulheres são as que mais morrem, os homens são os que mais matam.

Na história da pandemia é impressionante. Nos momentos de maior pressão, de Lockdown ou de quarentena absoluta, as poucas pessoas que você via nas ruas resistindo, eram homens.

Nas ruas, as pessoas que estão circulando são homens, o governo federalista hoje é protagonizado por homens.

Toda essa costura que desenha a trama que se configura neste momento de pandemia, se a gente prestar muita atenção ela tem linhas muito claras de construção dentro das masculinidades, não é?

Porque as mulheres que estão lá cuidando. Elas que estão a frente do serviço, porque, por exemplo, a grande maioria dos profissionais de enfermagem são mulheres, quando adoece alguém na família é uma mulher que vai cuidar, se é uma petiz, uma mulher que vai cuidar.”

Podemos manifestar que existe um movimento de transformação dos homens?

Movimento é um termo muito difícil. Porque a gente só nomeia um movimento quando ele está estruturado. Eu acho que a gente poderia manifestar que estamos nos estruturando uma vez que movimento. Mas eu não consideraria ainda, porque são as conquistas e os avanços que vão dando visibilidade a esse movimento.

Para pensar um movimento precisaria, por exemplo, ter uma integração maior junto as forças institucionais. A política de saúde da mulher, por exemplo,  foi uma conquista do movimento de mulheres organizado, com vários espaços, com discussão coletiva, assim uma vez que o movimento que estruturou a política de saúde da população negra. A política de saúde do varão não teve  a mesma trajetória.

A política de saúde do varão é uma conquista muito de ativistas, de pesquisadores, mas não de uma forma estruturada em movimento, porque movimento precisaria pensar em diferentes instâncias e diferentes processos coletivos.

Inclusive esse mapeamento mais largo [Homens do Brasil 2020] pode nos ajudar muito a sistematizar, a organizar a contribuir para que oriente movimento se organize de forma coletiva.

Para mim uma vocábulo fundamental para gente pensar em movimento é coalizão, quais são as coalizões que existem hoje nos trabalhos com os homens?

Enquanto não houver o coletivo, não tem uma vez que a gente falar em movimento, até porque boa segmento destas experiências são experiências no campo da virtualidade (que do mesmo jeito que começam, terminam). 

Eu entendo que o movimento é o movimento de promoção de direitos sexuais, ou movimento de paridade racial, um movimento de isenção de gênero e ai a coisa existe uma vez que um movimento que tem coalizões e inclusive tensões sobre determinados pontos. Mas no caso dos homens ainda não tem estas coalizões porque não existe uma ação integrada coletiva.”

Os encontros virtuais podem potencializar o movimento?

“Têm, por um lado, os grupos que já existiam presencialmente e passaram a subsistir no virtual porque não tinham condições de dar perenidade. Têm, por outro, os que deixaram de subsistir temporariamente porque a virtualidade desconfigurou o funcionamento do grupo. E também têm essas experiências novas que já começaram no processo de confinamento, portanto são desde sempre dentro da virtualidade

Acho que é muito cedo pra fazer uma avaliação. Mas neste momento eu vejo que a virtualidade trouxe oportunidades para outras pessoas — para mulheres, para população LGBT, que diante de questões que não poderiam ser tratadas em sua cidade (por segurança), na pandemia surgiram espaços virtuais de atendimento.

Agora pensando em movimento social, essa informação virtual não tem ajudado muito a gente, porque infelizmente essa informação virtual tem sido usada de formas muito pouco democráticas. Tem toda a questão das fakenews e do uso inadequado das questões públicas e políticas.”

No trabalho com masculinidades, uma vez que você tem visto a intensificação do conservadorismo?

“Eu tenho dialogado muito com amigos historiadores que trabalham com uma perspectiva de movimentos de fluxos históricos. O que eles falam é que a gente vive a história mundial em ciclos e de vestuário a gente está vivendo na volta de um ciclo, no fundo de um looping em que a gente chegou no momento em que precisamos enfrentar aquilo que é humano – que Freud chamava de pulsão de morte – que tem a ver com um tanto que não é do monstro, não é do não-humano, é próprio do humano: o libido de produzir violência, atrocidades, enfim, restrições aos direitos dos outros. 

Só que ai a gente faz o que tem se falado sobre os pactos civilizatórios: você vai criando pactos para prometer que a gente não se transforme numa sociedade de barbárie, que a gente não perdida as referências de possibilidade de perenidade e que não deixe que essa pulsão de morte tome conta da gente. Ela precisa ser negociada, mediada. 

A violência, os crimes, tudo isso são práticas humanas. Portanto a gente está vendo o que não é novidade, sempre existiu, mas que agora tomou o protagonismo da cena e eu acho que o repto é muito maior nesse sentido.

A gente teve um período de democratização muito pequeno, pouco tempo para gente poder edificar mudanças estruturais nessas instituições do Brasil. Portanto, uma vez que elas são frutos de uma história, elas têm marcas machistas, elas tem marcas racistas, essas instituições também têm marcas sexistas.

Embora seja sofrível, é importante que a gente possa visibilizar, porque ver essas coisas com mais perspicuidade ajuda a gente a pensar em estratégias de mudanças.

Esse repto não é lugar, não é só no Brasil. Isso é global.

A gente tem visto muito isso nas redes, particularmente na MenEngage: a Nicarágua passou por um processo assustadoramente violento, a Argentina recentemente voltou a ter uma gestão mais de núcleo esquerda, mas também teve sua experiência de retrocesso na gestão anterior, o Chile também.

Todos estes países estão enfrentando isso, portanto, estamos tentando identificar quais são os repertórios a partir dos quais esta sendo produzida essa abordagem, essas práticas fascistas no mundo inteiro. E boa segmento delas tem a ver com a militarização das práticas tanto discursivas uma vez que práticas materiais.

Tem uma autora chamada Raewin Connell (que é uma das primeiras a ortografar sobre masculinidades), ela tem um texto maravilhoso sobre a militarização da masculinidades.

É exatamente isso que a gente vem percebendo intercorrer, é uma mudança não só de padrão de práticas mas também de discursos: você ignorar o outro, ridicularizar o outro, desprezar o outro, violentar o outro, tudo isso são práticas associadas a essa militarização.”

Quais os principais desafios de expandir o trabalho com masculinidades hoje?

“Eu não posso lhe responder isso sem falar da pandemia.

Já estamos vivendo hoje em dia num cenário de incertezas. Portanto há um tempo detrás o repto maior da gente era de integração, de pronunciação e coalizões. É isso que a gente está tentando continuar nesta perspectiva do mapeamento e das outras iniciativas que vão vir consequentes a isso.

Agora, com o processo da pandemia a gente não tem perspicuidade ainda de uma vez que vai funcionar ano que vem.

Cá na universidade estamos começando com o ensino a intervalo e ensino a intervalo amplia desigualdades, porque não é todo mundo que tem equipamento adequado (nem professores) para poder fazer transmissão e tudo mais.

A pandemia introduziu também na gente uma urgência de repensar práticas experiências em vários âmbitos. Mas o repto anterior  buscar coalizões e interlocução entre as diferentes iniciativas  isso continua. “

Uma vez que você vê todo o trabalho que você realizou nos últimos 30 anos?

“Eu fico muito feliz de fazer segmento de uma ação coletiva eu acho que uma das coisas que a gente conversava muito lá em 1995 (quando a gente começa a se aproximar dessa discussão) era justamente a valor das ações coletivas. 

Eu acho que a vaidade masculina é, muitas vezes, o que produz essas figuras de herói, de protagonista, de idealizador, de fundador de coisas… E acho que seria até contraditório da minha segmento ocupar oriente lugar de alguém que é protagonista deste campo. 

Tudo o que eu contei pra você foram ações que só foram possíveis porque eu estava em coletivos: porque a ECOS existe, porque o Promundo existe, porque o Instituto PAPAI existe, porque o GEMA existe, porque a MenEngage existe.

Todos estes espaços são coletivos que fazem com que a gente evolua, avance, aprenda. Portanto eu acho que minha maior satisfação não é pelo que eu conquistei, o que eu fiz, mas de vestuário pelo que nós conseguimos conduzir uma vez que coletivo. E isso não é texto da boca para fora.

Isso é a conquista de um projeto de promoção da isenção de gênero a partir de uma perspectiva feminista, que é de potencializar sujeitos e não, protagonistas.”

Qual o sonho para perenidade dos trabalhos com homens e masculinidades?

“Mais espaços de trocas, esse é um libido meu e uma preocupação com a pandemia, porque as trocas presenciais, elas não são substituíveis.

Acho que nas trocas presenciais se produz mais afetos, mais vínculos e com isso a gente consegue ter uma ação política muito mais potente. Eu espero que a gente consiga voltar a ter espaço de mediação e de pronunciação presencial de novo .

Eu libido que a gente consiga respeitar as diferenças dentro do campo das masculinidades e também que a gente possa incorporar as trajetórias de construção de modelos de masculinidade que são atravessados pelo racismo, pelas opressões de gênero, pelas identidade de gênero e que a gente possa, de vestuário, entender que isso tudo faz segmento de um mesmo movimento.

Que a gente, de vestuário, possa entender o movimento dessas ações com os homens uma vez que segmento de um movimento feministas. Acho que o movimento feminista nos provocou a pensar, portanto eu acho que o trabalho com os homens é uma consequência quase inevitável da ação feminista e que deve portanto ao feminismo reconhecimento da sua autoria.”

Para saber os trabalhos acadêmicos de Benedito Medrado

Homens e masculinidades: Outras Palavras (1998) 
Por Margareth Arilha, Sandra G. Unbehaum Ridenti, Benedito Medrado

Homens e masculinidades: práticas de intimidade e políticas públicas (2010)
Organizado por Benedito Medrado, Jorge Lyra, Mariana Azevedo e Jullyane Brasilino 

Oficinas uma vez que estratégia de pesquisa: articulações teórico-metodológicas e aplicações ético-políticas (2014)
Por Mary Jane Spink e Vera Mincoff MenegonIBenedito Medrado

O masculino na mídia: Repertório sobre masculinidades na propaganda televisiva brasileira (1997)
Benedito Medrado Dantas

Homens, violência de gênero e atenção integral em saúde (2009)
Edna Granja e Benedito Medrado

Posicionamentos críticos e éticos sobre a violência contra as mulheres
Benedito Medrado Dantas e Ricardo Pimentel Méllo

Gênero e paternidades nas pesquisas demográficas: o viés científico
Por Jorge Lyra e Benedito Medrado

Por uma matriz feminista de gênero para os estudos sobre homens e masculinidades
Benedito Medrado e Jorge Lyra

Princípios, diretrizes e recomendações para uma atenção integral aos homens na saúde (2009)
Benedito Medrado

 


publicado em 24 de Setembro de 2020, 11:58





Fonte: papodehomem.com.br

Um treino para ampliar a sensibilidade e o repertório na vida sexual

AmarElo Prisma | Documentário de Emicida propõe reflexões sobre autocuidado e vida em sociedade – PapodeHomem

AmarElo Prisma | Documentário de Emicida propõe reflexões sobre autocuidado e vida em sociedade