Comodidade do companheiro de foda

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Comodidade do companheiro de foda

No clássico de Hollywood, Harry disse para Sally que uma mulher e um varão nunca poderiam ser só amigos porque sempre haveria uma tensão sexual no meio para estragar.

Mais interessante que encontrar a resposta da premissa é o questionamento à pergunta. Sim, duas pessoas, uma se sentindo atraída pelo gênero da outra, podem ser só amigos, sem tesão, mas se houver um pinguinho desse interesse sexual, e se eles levarem esse interesse a cabo, porque isso estragaria a amizade?

A partir desse ponto eu poderia ortografar dois textos: um sobre uma vez que o sexo entre amigos pode não envolver sentimentalismo nenhum, e outro sobre uma vez que, quando essas amizades terminam em romance, se revelam o melhor tipo de paixão. Escolhi abordar o segundo.

Parece aterrorizante misturar duas coisas, sexo e amizade. No famoso paixão de pica  (que também pode ser se xana ou de dedo) o temor é que, depois de vários encontros muito sucedidos e de conversas profundas, com a intimidade, a coisa perdida a magia. Porém, muito mais assustadora que esta opção, é desenredar que se pode ter um sexo casual incrível com um grande companheiro – um daqueles que te fazem rir todas as sextas-feiras e que te salva dos piores momentos possíveis – porque não se  quer malparar perder, ou complicar a relação que se tem ao colocar o sexo no meio.

Nós somos seres infectados por hollywood e pelas novelas das oito, hesitamos em nos entregar às situações mais descomplicadas simplesmente por não saber o que vem depois e uma vez que aquilo deveria terminar. No entanto, se pisamos detrás com estes casos, não conseguimos nos prevenir das paixões mais arrebatadoras, porque essas, de tão brilhantes, ofuscam a vista e os buracos da estrada que vem pela frente.

Nos parece que o paixão romântico é mais bonito. Simples, porque é preciso desejar uma vez que quem não tem olhos para o resto do mundo, há de se fazer o que for, infringir leis de aeroportos, percorrer na chuva, para ocupar o tal querido, já que aquela é a pessoa certa, e sem ela não se pode viver, porque o paixão verdadeiro é único. Em proporções diferentes, homens e mulheres compram essa ilusão e perdem relacionamentos só por permanecer a espera dela.

Já aquela simples saída com um companheiro, sexo casual, hamburger, havaianas, é incessantemente desvalorizada -não só porque apresenta o risco de perder a amizade – mas principalmente porque não é tão encantador, por fim, é, sobretudo, uma comodidade. Não tem paixão em quase todos os seus sentidos: não tem sofrimento, nem emulação, nem aquele desespero de prometer o reencontro. No sumo tem vontade, e lume.

Queimada sim, porque com um companheiro de foda, o sexo sempre é bom, simples, ele é o variegado, o mote da coisa e, sem ele, é só amizade. Outrossim, independente do que veio primeiro, o sexo ou a amizade, estando os dois fora do contexto romântico, se idealiza menos. Não é preciso se preocupar tanto com manter uma imagem apreciável – pode andejar de camiseta esgarçada, lamber o dedo comendo costela, soltar um pum sem passar a semana se desculpando pelo escape – tudo é reconfortante. Sem a pressão de ser o ultimate padrão de partidão da porra, é verosímil ser a si mesmo e esse eu verdadeiro resulta mais interessante.

Sabe-se que a outra pessoa não é imaculada e indefectiva, e talvez por saber que ele é um tanto plácido e que ela tem uma ordenado urgência de nutrir seu ego, eles nem pensaram em ser um parelha, num primeiro momento. “Não daria claro”. Quando se descobrem inseparáveis, todas as desvantagens estiveram ali, às claras o tempo todo, se mostram pequenas diante da recompensa.

De uma sequência de encontros, fodas e conversas espera-se, somente, companhia. A falta do compromisso, a face efêmera desse padrão de relação, impede que um deposite a responsabilidade da sua felicidade e completude na mão do outro; evita também que um esteja com o outro por obrigação, por promessa, por lei do manual de compromisso e expectativas; e nem ao menos demanda exclusividade. Quando o paixão se manifesta, ele não foi demanda, foi oferta.

Harry e Sally contam que, na terceira vez que se encontraram, eles ficaram amigos, e ficaram por muito tempo, até que não eram mais, e portanto se apaixonaram.

Se Harry quis proferir que deixaram de ser amigos porque se apaixonaram, é provável que os dois não tenham durado muito tempo juntos depois dos créditos.

Faço votos que ele estivesse se referindo a outra coisa, porque a teoria de que a amizade é oposta ao romance só funciona, assim uma vez que nos filmes, por um par de horas, até que as luzes se acendam.


publicado em 25 de Abril de 2017, 01:00





Fonte: papodehomem.com.br

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