Dá pra voltar de onde a gente parou?

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Dá pra voltar de onde a gente parou?

Programou dias intensos de paixão e carinho com a novidade namorada, tardes de piquenique e passeios no shopping, idas ao cinema, quem sabe um encontro a dois em moradia se os pais fossem almoçar na moradia de alguma tia. O recesso de final de ano serve pra isso, não? Mas ela viajou para a praia. 

Ora, bolas, esquema claro logo seria cuidar da própria vida, marcar encontros com os amigos, seguir com os treinos do time de futebol da escola, caminhar de skate, fumar escondido no fliperama ou no escadão, ver os filmes do verão  com os bróder. Mas passou um dia, chegou o segundo e, uma semana depois, já estava acordando mais tarde e trocando turnos entre o sofá da sala e a leito, bisbilhotando o Instagram da moçoila, vendo fotografias de ondas e enfeites de conchas pela moradia alugada. Se pegava um gibi para ler, caía no sono. Se ligava a televisão, zapeava canais e colocava no mudo para ver pela enésima vez um dos episódios de Choque de Cultura com todas as falas praticamente decoradas.

Natal passou, o ano novo chegou, e a vida mergulhada em tédio. Isso até o WhatApp pipocar no meio de uma soneca de janeiro e avisá-lo que ela tinha voltado. Era uma troca de conversas no grupo da ex-oitava série. Uma semana e meia antes do retorno previsto, por conta do trabalho do pai, e ela estava de novo no bairro, marcando de se ver com as outras meninas. Saltou da leito e se programou. faria umas flexões antes do jantar, voltaria a escovar os dentes ao estipular e na hora do almoço, esperaria três dias para falar com ela (considerava necessário se dar o valor, pois fora o que aprendera com os amigos, que era sempre bom esperar três dias) e faria ela perceber o erro que foi deixá-lo para trás, mostraria o varão que ele se tornou nessas últimas três semanas e provaria ser a melhor opção de todas as escolhas em todas as chances. 

E ela haveria de se arrepender. Porque não o teria novamente.

Mas o invitação de passeio foi estendido aos garotos do grupo e todo mundo concordou em se ver. Não haveria muito tempo. Caçou as melhores roupas, treinou no espelho feições de desprezo e modorra, inventou para si mesmo que tinha divulgado outra moçoila na moradia da avó no dia da noite de natal, indumento que ninguém poderia justificar ou negar, e repassou possíveis pontas soltas caso alguém perguntasse detalhes. Nome verosímil e endereço plausível, onde estuda, qualquer trejeito que ela poderia ter, indumento que demonstraria boa visão dele, certa intimidade entre os dois. Estava positivo que faria ela remunerar por cada dia em que se divertiu jogando frescobol ou nadando nas ondas do que pensando nele, questionando o propósito da vida longe dele.

No encontro, conversas e abraços, todo mundo devotado a racontar as próprias histórias, as grandes novidades, esvaziar uns nos outros os anseios para o próximo ano. Ele a viu, acenou com a cabeça, procurou se posicionar meio de costas para ela, mas não o suficiente para sumir da vista dela. E enfim, em meio à balbúrdia, sem querer se tocaram. “Ei, oi. Nem sabia que você já tava de volta”, jogou ele, falando antes mesmo de concluir que poderia ser, essa, a melhor frase de início. “Mas fui eu que marquei o encontro”, rebateu ela meio rindo. E seguiu para onde queria ir: “Escuta, posso falar com você em pessoal? Me encontra ali no quina em dez minutos?”. Ele botou os olhos na pilastra indicada e fez que sim com a cabeça. Pensou em atrasar para não parecer desesperado, tentou retirar qualquer objecto para se perder no tempo, mas três minutos depois já estava se encaminhando para a localização combinada.

Era a hora de mostrar todo o seu desdém e sua empáfia, racontar para ela do seu novo paixão, da sua incrível novidade vida. Era uma garoto livre e ligeiro, pleno de aventuras nas costas, experiente e sabichão, que não pararia o próprio tramontana a espera de um namorico que nem desabrochou. Ele era demais.

“Eu fiquei com saudades dos seus beijos, sabia?”, ela disse quando chegou mais perto dele. Deserto na boca, o esôfago se entrelaçando. “Ju… Juramento?”, foi a melhor resposta que ele encontrou. “Renda sim. Eu queria mais. Será que você pode me dar?”. Ela fez a pergunta ainda se duvidando, levantando o narizinho quase fechando um dos olhos e retorcendo um pouco o corpo no sentido anti-horário. O natal, a novidade pequena, as aventuras, o novo varão que ele era. Tudo foi para o ralo quando ele fechou os olhos e deu o que ela estava pedindo. Se pegaram bons instantes detrás da pilastra sem conversar, só retomando o delonga, curtindo ouvir a respiração errada um com o outro, aproveitando do pouco espaço para se colarem. “Hmmm, eu acho que você tava com saudades também de alguns beijos”, ela finalmente soltou, decretando de vez o revés de qualquer vingança. Mais alguns flagrantes e apertos, e ela retomou conversa: “Mas, vem cá. Antes de eu viajar, você tava comentando de alguns planos, alguma coisa que envolvia nós dois. Ainda dá tempo de fazer algumas dessas coisas?”. 

“Galera, a gente tá namorando!”, ele gritou lá do quina, puxando ela pela mão.

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publicado em 05 de Janeiro de 2018, 00:00





Fonte: papodehomem.com.br

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