Decidi assumir minha bissexualidade

Decidi assumir minha bissexualidade – PapodeHomem
Tempo de leitura: 9 minutos

Decidi assumir minha bissexualidade

Fiquem tranquilos!

Mãe, pai, amigos do convívio quotidiano e mais uma boa turma já sabem desse indumento há pelo menos uns 4 anos. Mas uma vez que no dia 23 de setembro é festejado mundialmente o #DiadaVisibilidadeBissexual – justamente para combater a invisibilidade e o estigma que as pessoas bissexuais sofrem na sociedade e dentro do próprio movimento LGBT – resolvi transpor do armário pela segunda vez, a primeira oficialmente cá no Facebook.

Aí você me pergunta: mas se você já teve aquela conversa com as pessoas mais próximas de você, quando depois de um ano de experiência e terapia, contou: “sabe o que é, eu descobri que palato de pessoas”, por que é que você está expondo isso agora que essa gente que você mais governanta já te compreende e te respeita?

A resposta não é assim tão simples.

Muito, eu nasci regado de privilégios (de classe, de cor, de gênero) e nasci em uma família onde sempre houve muito carinho e diálogo. Por isso a minha história pessoal – e é desse ponto de vista, unicamente, que escrevo agora –foi relativamente simples e sem grandes traumas. Embora sempre seja difícil, simples.

Mesmo assim, eu nunca sofri bullying quando pequeno, pois sempre me entendi uma vez que uma párvulo/jovem cis-hétero sem a urgência de ser zero aliás. Em outras palavras, eu sempre me adequei ao padrão, pois não havia urgência de ser dissemelhante, e por conta disso nunca fui vítima da sociedade intolerante que nos tornamos (ou sempre fomos?).

O processo de me permitir questionar minha sexualidade veio muito mais tarde, de uma forma muito ligeiro, em um momento onde eu já tinha maturidade e autoestima suficientes para encarar a construção de uma novidade orientação sexual. O que é raríssimo entre as pessoas bissexuais. E é esse o ponto desse post.

Estudos mostram que jovens bissexuais, em confrontação a gays e lésbicas, apresentam: (1) níveis menores de corroboração familiar; (2) maior ignorância de pessoas e instituições que poderiam ajudá-los na sua jornada de auto corroboração; (3) um pessimismo maior em relação a seus relacionamentos amorosos, sua ingressão na universidade ou sucesso na curso; (4) maiores taxas de transtorno nutrir e automutilação; e (5) o maior índice de suicídio dentro da comunidade LGBT.

Que as taxas de suicídio entre jovens LGBT são comparativamente maiores do que as da juventude em universal eu já sabia, mas mesmo dentro desse grupo já com um índice mais elevado, os bissexuais são as maiores vítimas. O preconceito e uma vida de privações por simplesmente ser quem você é, acaba levando pessoas LGBTs a transtornos depressivos, sofreguidão e à procura por válvulas de escape uma vez que as drogas, por exemplo.

Para os bissexuais, em privativo, onde o libido por ambos os sexos não é muito visto nem por héteros nem por homossexuais, o buraco fica ainda mais fundo. A falta de espeque social e o isolamento mantém essas pessoas no armário, obrigando-as a levar uma vida dupla que gasta mais robustez, gera mais estresse e empurra com a bojo o drama social que lhe é imposto.

É por conta disso tudo que é importante proferir que você, muito provavelmente, é secção desse problema que faz com que essas pessoas acabem com a própria vida mais do que qualquer outro grupo de jovens. Não fique ofendido. Leia até o final. Eu prometo que você vai aprender um monte de coisas com essa leitura. Logo mais a gente volta a falar sobre minha bissexualidade e sei que você já está morrendo de vontade de perguntar um monte de coisa.

Uma vez que eu estava dizendo, até alguma semanas detrás eu também não conhecia esses dados tão assustadores. Eu já tinha conhecimento de dados uma vez que o de que “a homofobia mata uma pessoa a cada 25 horas”. E que isso faz do Brasil “o país que mais mata travestis e transexuais no mundo”. O que eu nunca imaginei foi que havia essa tendência suicida entre pessoas bissexuais.

Veja muito, não estou falando que não precisamos propalar as centenas de mortes causadas todos os anos por homofobia e transfobia. Pelo contrário. É evidente que esses números precisam estampas as capas dos jornais diariamente. Pois acontecem diariamente. Precisamos, sim, escancarar esses fatos para podermos exigir políticas públicas que previnam, punam e acolham as vítimas desses crimes motivados pelo ódio. O que eu proponho cá NÃO é uma competição entre as letrinhas LGBTTIQ. Até porque, estamos falando de vidas humanas que possuem também seu valor.

Minha intenção cá é exclusivamente invocar a sua atenção para que eu, bissexual assumido, até um mês detrás não conhecia essas informações em relação ao meu próprio grupo identitário. Olha só, eu nem sabia que o Dia da Visibilidade Bissexual sequer existia.

Pior do que isso. Falando em grupo identitário, eu ainda posso racontar nos dedos quantas pessoas bissexuais eu conheço. Varão, cis e bi – uma vez que eu – menos ainda. O que é no mínimo curioso e muito preocupante se fomos confrontar com esse outro oferecido: as pessoas bissexuais representam mais da metade da comunidade LGBT ao volta do mundo. É por isso que os bissexuais também são chamados de “a maioria invisível”. Ou seja, somos a maioria, mas eu nunca vi, nem comi e nem ouço falar, hehe.

Toda essa falta de referências e todos esse isolamento e invisibilidade faz com que jovens bissexuais sempre se questionem: será que eu sou uma anormalidade? Por que não conheço ninguém igual a mim? Cadê esse povo? Por que de todo teor LGBT que circula por aí zero é sobre bissexualidade? Por que é tão difícil me assumir bi? O que faz com que todas as outras pessoas duvidem da minha sexualidade? Por que ainda somos invisíveis se somos tantos?

Todas essas perguntas passaram pela minha cabeça desde que me assumi. Mas só fui desvendar que a respostas passava por uma vocábulo chamada bifobia (o preconceito voltado às pessoas bissexuais) muito mais recentemente.

Você vai encontrar besteira né? Vai falar que inventamos mais um nome para um preconceito que nem existe? Não é por aí. Eu te explico.

Na história recente da sexualidade, convencionou-se dividir o mundo das orientações sexuais em dois grandes eixos: “heterossexual” e “homossexual”. Desejos e relações que não se prendam a um único gênero acabam sendo ignorados, invisibilizados e deslegitimados.

Todos os dias ouvimos frases uma vez que “isso e só uma período”, “logo mais você se decide”, “bissexualidade não existe”. Até quem não quer ofender, vez ou outra, solta uma dessas. E quando não estamos ouvindo isso de indumento, muitas vezes dá pra saber que é exatamente o que os outros estão pensando. Alguns nem fazem questão de esconder. Isso dói, machuca, incomoda muito principalmente porque obriga que você tenha que se declarar sua identidade toda vez. Toda hora é preciso dar explicações sobre seus desejos, uma vez que se você não se conhecesse.

Foi por isso que listei, aquém, seis das maiores besteiras que escuto por aí quando digo que sou bissexual. Cada uma delas foi explicada na tentativa de combater a bifobia, mesmo que seja involuntária, e para incentivar que todos passemos a respeitar e compreender uma identidade que – até pode não ser a sua – mas também merece viver de forma digna sem ser questionada. Vamos lá?

1. Rapaz, decide aí. Enfim você gosta mesmo de varão ou de mulher? Não dá pra gostar dos dois ao mesmo tempo.

Pois eu to dizendo que dá sim. E digo isso a partir da minha experiência. Enfim, alguém precisa não gostar de salso para poder gostar de gula? Já vi muita gente usando essa metáfora por ser muito direta e didática. Mas pra mim mormente não é tão dissemelhante assim estar com uma mulher ou com um varão. No termo das contas, pra mim (e ser bissexual é entender que cada um vive sua sexualidade à sua maneira) o que importa é a pele, o carinho, a troca de olhares, o toque, a tensão sexual (e simples, a surpresa – fundamental – ou aquela paixãozinha quando você já não está mais envolvido).

Não sei explicar uma vez que isso acontece. Só sei que é o que sinto. Você sabe proferir o que te faz sentir atração por uma pessoa e não por outra? Talvez pra mim –e quem sabe para todos os bissexuais – sejam atributos que eu encontre tanto em uma mulher uma vez que em um varão. Mas essa subjetividade toda não foi feita para permanecer sendo compreendida. A gente precisa só vivenciá-las e zero mais. Pra que complicar?

2. Mas não é provável, você deve ter uma preferência. Do que você gosta mais?

Isso também é um outro erro generalidade sobre a bissexualidade e enche muito o saco. O grande barato de ser bissexual é concordar a fluidez dos seus desejos. Vai ter dia, fases ou épocas em que você vai querer estar mais com um sexo. Outras com o outro. O mais lítico é você concordar isso a ponto de não precisar mais responder essa pergunta nem pra você e muito menos pros outros.

A sociedade costuma encontrar que pra alguém ser bissexual de verdade, precisa ter uma caderneta e marcar cada menino e cada moça com que você transe ou se envolve, de modo que fique sempre equilibrado. Puro. Não é logo que a coisa funciona e nem precisa ser. Sinceramente, nós não estamos preocupado com isso, por que outra pessoa deveria estar?

Ou por outra, é provável que você resolva passar o resto da sua vida com um único sexo (sim, existe monogamia na bissexualidade, já falaremos mais disso). E isso não fará com que você deixe de ser uma pessoa bissexual, uma vez que a atração por ambos os sexos sempre poderá viver. Resumidamente, a bissexualidade é quem você é e não com que você está.

3. Mas logo você nunca vai estar satisfeito ou completo?

Também não funciona assim. Quando eu estou com uma mulher, eu estou com uma mulher, não sinto falta de um varão. E quando estou com um varão, estou com ele e ponto. Sentir atração por mais de um gênero não significa que você vai sempre ter a urgência de estar com mais de um gênero. Encontrar que seu parceiro ou parceira vai sempre estar desejando aquilo que ele/ela não tem naquele momento, é alguma coisa que pode suceder em qualquer relação, inclusive heterossexuais.

A bissexualidade também é muito condenada por, em muitos casos, estar atrelada a um enfrentamento aos padrões monogâmicos de relacionamento, mas isso já é tema pra outro dia.

Existe também o mito de que bissexuais sejam infiéis. Esse é mais um dos estigmas e um muito triste por sinal. A infidelidade ou quebra de um pacto – caso o par tenha optado por essa relação monogâmica –sempre estará atrelada às escolhas de um dos dois e nunca a orientação sexual de um deles.

4. Nossa, logo você pega universal, né? Suas opções dobraram!

No momento, eu até queria que fosse assim, mas não! Me diz, você que gosta de mulher, todas elas te atraem? Você que gosta de homens, tem vontade de transpor pegando todos eles? Geralmente, logo que a gente passa dos, sei lá, 16 anos, já percebe que não é muito assim. Pelo contrário. Pra mim, pelo menos, as possibilidade reduziram bastante desde que me assumi bi. Uma vez que a atração sexual não está mais atrelada ao gênero e sim a nuances uma vez que uma boa conversa, a risada, a química, a surpresa intelectual e, simples, alguma coisa ali que te atraia fisicamente, fica difícil esse leque de opções se ampliar tanto assim.

E, simples, mais uma vez por conta da bifobia, não é todo mundo que vai querer permanecer com homens bissexuais uma vez que eu. A maioria das mulheres héteros tem preconceito (por sorte, nunca as mulheres pelas quais me atraio). Os homens héteros obviamente não ficam comigo, pois são héteros. E alguns homens gays também são bifóbicos e acham que eu serei um grande cafajeste/aproveitador.

Já os homens e mulheres bissexuais… Muito, estes uma vez que já falamos só podem estar escondidos ou viverem numa caverna, pois são invisíveis. Ou seja, as chances pra mim, na verdade, não aumentaram. Elas, inclusive, diminuíram e são menores do que as suas.

5. Rostro, uma vez que você gosta de sexo, né? Não pode ver um ser humano em movimento que você já quer ir pra cima.

Muito, o indumento é que aprendi a concordar e gozar o prazer na vida sim, mas isso não é porque sou bissexual. A maioria dos bis fica com esse estigma de promiscuidade e hipersexualização, de que estão o tempo inteiro pensando em sexo. De repente, para alguns até seja, mas de novo, não por conta da sua orientação sexual. Ou vai me proferir que você não conhece nenhum hétero que seja assim?

Outro transe desse mito é das pessoas não bissexuais, acharem que somos objetos sexuais. O que é ainda mais generalidade quando o varão hétero acha super lítico sua namorada ser bi, só para prometer sua grande chance de estar com duas mulheres ao mesmo tempo. O fetiche é alguma coisa que deve se restringir a objetos (lingeries, por exemplos), partes do corpo (pés, por exemplo), ou ações (frutas, velas, chicotes), nunca à identidade de um outro ser humano sejam eles bissexuais, latinas, negros, etc, combinado?

6. Fala aí, você só é bissexual por susto de se assumir gay, não é?

Rostro, não! É tão difícil pro bissexual transpor do armário quanto por homossexual e uma vez que eu já demonstrei cá, não há nenhuma grande vantagem em ser bi do que ser homo. Ainda acha que é bobagem?

A pessoa bissexual terá que assumir que sente atração por pessoas do mesmo sexo e suportar todo o preconceito que uma pessoa gay ou lésbica sente. Inclusive, com o risco real de recolher na rua, ser excluído do grupo de amigos, ou até mesmo perder o serviço por isso.

Portanto, não, ninguém se assume bissexual para quebrar o gelo ou para preparar o terreno. Simples que para alguns, a bissexualidade poderá ser uma lanço de autoconhecimento, uma transição, mas nunca, em hipótese alguma, diga para uma pessoa bi que ela não é bi. Quem tem que chegar a esse peroração é ela, no tempo dela. Não tem uma vez que você saber. 

Héteros, em universal, odeiam ter sua sexualidade questionada. Inclusive, isso é feito uma vez que forma de xingamento. Portanto porque quando a pessoa é bissexual seria dissemelhante? Aliás, quando foi que você decidiu ser heterossexual? Ou homossexual? Você também não lembra, né? Pois é, não foi uma decisão. Você simplesmente é assim. É a sua identidade. Portanto que tal respeitar a dos outros?

***

Nota da edição: Leste texto foi originalmente publicado no Facebook do responsável em menção ao Dia da Visibilidade Bissexual comemorado todo dia 23 de setembro e gentilmente ofertado para republicação no PapodeHomem.


publicado em 06 de Outubro de 2017, 13:29





Fonte: papodehomem.com.br

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