“Desculpa, camarada. Essa mulher tá acabando comigo. Pode dar nota baixa”

"Desculpa, amigo. Essa mulher tá acabando comigo. Pode dar nota baixa"
Tempo de leitura: 4 minutos

“Desculpa, camarada. Essa mulher tá acabando comigo. Pode dar nota baixa”

“Mas pelo paixão de deus, o que mais você queria que eu fizesse? Parece que tudo o que eu tento não serve de zero, qualquer coisa que eu diga só piora mais as coisas!”. As janelas dianteiras na frente faziam o fragor da rua entrar e, consequentemente, o forçava falar ainda mais tá para que a gravação pudesse captar muito sua voz e a intenção nela. Com o aparelho grudado numa ventosa de borracha que chupava o pintura do carruagem, precisava potencializar a fala para ser escutado.

Mas não estava, nem de longe, sendo ouvido.

Quando o face entrou no Uber, o motorista já estava com os olhos avermelhados, a face meio inchada. O “bom dia” saiu tão pesado que quase não chegou nele, estatelando-se em qualquer lugar entre o banco do motorista e o assento traseiro. Não entendendo muito, o face cruzou a perna e, de óculos escuros, abriu o celular para conferir o trajeto até seu rumo final. Aproveitaria também para mandar um e-mail ou dois, antecipar o dia. Mas sua concentração foi para o buraco. A cada paragem, num farol ou nas vias mais carregadas, o condutor mandava novas mensagens para a namorada. Claramente estavam tendo uma discussão e o face julgou ser das pesadas, tomando por medida o desespero no jeito com que o “motoras” procurava as palavras, com que organizava as ideias, gaguejando e se repetindo. E, ao julgar pelas respostas secas da voz feminina que voltava, eles haviam terminado um relacionamento que não tinha muita esperança de volta. “Caralho, presta atenção no que você tá falando!”, ele insistia. “Puta que o pariu, para de ser assim! Se eu tô dizendo que…”.

E tentava. E persistia. A cada esquina mais vagarosa, em todo semáforo avermelhado, ele dava pequenos murros no volante, puxava poderoso o ar pelo nariz para segurar o muco que se formava e apertava incessantemente os olhos para ver se ainda escorria alguma lágrima. Mas, logo cedo naquela manhã, ele já estava sedento. O face, detrás, completamente fisgado no que estava ocorrendo. Simples, não tinha muito uma vez que fugir e nem fingir que estava alheio à gritaria ou aos cortes duros que ela dava ao retornar com áudios glaciais, que o pobre varão que dirigia o carruagem precisava botar para ouvir de novo, só que com maior volume da segunda vez, tamanha a impassibilidade de sua ex-companheira.

Ele era a força que não podia ser paragem dando com a fuça no objeto que não podia ser movido, no caso, a decisão dela.

Sua mão estava descontrolada. O face no banco de trás ficava reparando na velocidade tremida com que ele trocava de marcha, apertava o botão de enviar áudios, adiantava a rota no planta do aplicativo para saber se faltava muito, aumentava e diminuía o volume do rádio conforme as respostas dela iam chegando. Simples, o com estava sintonizado na Antena 1, tocando canções no programa Daylight, “de segunda à sexta à partir das cinco horas, duas horas de músicas para debutar muito o seu dia”, era a vinheta que passava entre um clássico meloso e outro, só pra romanticamente aumentar a melancolia dentro do carruagem que passou a racontar com “Lady in Red” uma vez que trilha sonora. “A senhora de vermelho está dançando comigo, bochecha com bochecha”. Tirou os óculos escuros, incrédulo com a sincronia irônica da vida.

Mas já estava chegando ao termo o seu trajecto. Lá no banco da frente, a figura do outro era desoladora. Uivava para não provar que estava entregue às lágrimas, portanto fazia uma espécie de trejeito tentando segurar o pranto. Estava uma lástima. Foi diminuindo a velocidade, encostando na passeio. Estacionou. O inverno dentro do carruagem.

“Desculpa, camarada. Essa mulher tá acabando comigo. Pode dar nota baixa aí”. Seu pedido não vinha com ódio, uma vez que se não ligasse, mas tinha um excesso de conformismo, uma vez que se tivesse entendido tudo ao parar, uma vez que se enxergasse todo o quadro, sua relação com a outra pessoa, seu pequeno contato com o face de trás.

Ao transpor, antes mesmo de entrar no prédio onde era aguardado para a reunião, o usuário pegou o celular do bolso, abriu o aplicativo e deu nota cinco para o motorista. “Porque o dia hoje foi foda”, ele colocou uma vez que observação. “Felicidade aí. Vai permanecer tudo muito”, comentou também quando se virou. Mas percebeu que o motorista já havia fechado a janela pra chorar.

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publicado em 25 de Maio de 2018, 00:00





Fonte: papodehomem.com.br

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