É paixão? Quando a reação vira violência

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É paixão? Quando a reação vira violência

“Eu não vou negar que sou louco por você… Tô maluco pra te ver…”. No apartamento do marchar de inferior, o Zezé dava condições para que ele forçasse um pouco a fechadura dourada da porta e conseguisse, enfim, entrar. Subiu os oito andares pelas escadas, pra não dar de rostro com ela. 

La dentro, quatro cômodos mobiliados com o esmero do primeiro himeneu, espelho grande e limpo na parede, luminárias com cristaizinhos e tapete variegado, cozinha toda equipada com eletrodomésticos prateados, o sofá retrátil que eles namoraram por meses sem saber de iria caber ou não junto com a luminária na sala mais apertadinha, decisão tomada em conjunto para que um segundo quarto já estivesse pronto para uma verosímil chegada de bebês num porvir próximo. Mas, antes de concretizarem o sonho da sarau de himeneu, as constantes desavenças foram cercando-os dos mais diversos receios e, assim, o que deus uniria em uma só músculos, fartou-se antes mesmo de ser marido e mulher.

Passaram as semanas seguintes encomendando a culpa um nas costas do outro, criando, quando juntos, um envolvente de insalubridade emocional, confissões belicosas, insultos e lorotas para incendiar, no outro, a fúria. Não dava mais para continuar. 

Mas havia a burocracia com o que sobrou. Tinham de resolver o que fariam com o apartamento e com tudo o que estava lá dentro, precisavam selar de forma amistosa a partilha de bens, deixar o arranca-rabo para depois dos mecanismos legais. E marcaram de resolver isso no imóvel.

Entrou pé perante pé com a conhecimento de uma bailarina para que seus passos não fossem ouvidos caso alguém já estivesse zanzando em um dos quartos ou no banheiro. O “Você é minha gula querida” vazava abafada do marchar de inferior enquanto ele fazia a checagem de que estava mesmo sozinho no envolvente, tendo de roupa chegado antes do combinado para ter um tempo para si. A dupla esguelando o “a sossego que eu preciso pra sobreviver” ficou mais inteligível quando ele ligou o rádio e a melodia passou a passear também no apartamento de cima, o que ele se encontrava rodeado de solidão.

Alisou os botões acinzentados do aparelho, sentiu nos dedos a rugosidade da gradezinha de proteção dos auto-falantes, segurou a engenhoca do dedo entre os dedos atirou-a com toda a força empregada no braço recta contra o espelhão, destruindo ambos no choque. Com a boca formando um círculo em cima do queixo e as narinas ampliadas nas fendas para transpor todo o ar de uma vez, repuxou os músculos da coxa para cima e, com a sola do sapato, empurrou a mesinha de núcleo que espatifou a janela da varanda.

Virou a mesa com as mãos, rasgou as cortinas enquanto urrava e, com os dois braços, empurrou tudo o que estava na pia da cozinha. “Um louco, tresloucado, meio inconsequente”. Praguejou o inferno com a boca espumando baba, desafiou todos os santos com as mãos fechadas e o punho em riste, chacoalhando todo o corpo, tirando todas as lâmpadas com a ajuda de um banquinho de madeira e atirando-as no soalho, cuspindo no sofá retrátil, dilacerando o tecido dos braços e das almofadas com uma faca de trinchar pão, caindo sentado de exaustão no galeria perto do banheiro. “Um caso complicado de se entender”.

Quando a polícia chegou, tava riscado à chave na ingresso da porta: “É o paixão…”.

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publicado em 10 de Novembro de 2017, 00:00





Fonte: papodehomem.com.br

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