Ele queria chegar no outro rostro, mas não sabia muito porquê

Ele queria chegar no outro cara, mas não sabia bem como
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Ele queria chegar no outro rostro, mas não sabia muito porquê

Só a presença dele já parecia encher o bar inteirinho. Libriano, expansivo e aparentemente proprietário de si. Mas, por dentro, o desalento de se sentir incapaz de dar o primeiro passo. Já estavam há dias se olhando com mais disposição, depois que a amiga do RH pagou de casamenteira casual e comentou de um pro outro e de outro pra um, que ambos eram, que ambos estavam no jogo. Sarau acontecendo, um primeiro amplexo e, num segundo momento, outro enlace e ele sacou que a pândega estava acontecendo. Engraçado que, em conversas posteriores, o outro sempre diz não ter posto intenções no aconchego, mas ele voto de pés juntinhos que sentiu as tais faíscas explodindo em volta deles. Bebidas, brincadeiras e risos eram distribuídos, mas ainda havia uns pequenos modos de sarau da empresa, uma risco fina que não queriam ultrapassar.

Tudo muito permitido, mas ainda muito que acabou cedo. Os mais fortes seguiram o ritmo da borracheira no posto da esquina. Líquidos na conveniência, mais conversa e zombaria. A incerteza. O engolir de palavras, de perguntas, de tentativas. Tantas chances. Ele ia contando na cabeça os pequeninos contratempos, remontando as frases que usaria caso chegasse no outro. Uma vez que abordá-lo? De que maneira poderia invocar alguém tão focado em cuidar da própria profissão a fazer um pouco que não remete em zero às incumbências do trabalho? Botaria a culpa no álcool? Tentaria tirá-lo de lá? Ficava se perguntando porque, dentre tantos caras no mundo, ele foi se interessar até dar coceirinhas justo pelo mais certinho deles? O mais quieto? O mais tranquilo? Rodava pelos papos dos amigos, batia com o dedo indicador no rótulo da garrafa de cerveja, denotando a sofreguidão dos que não botam para fora. E o outro conversando pausadamente, fazendo bromas, demorando para voltar do banheiro.

“Se eu tirar meu cavalinho da chuva, tudo vai permanecer resolvido”, afirmou para si enquanto montava na cabeça sua desistência. Se não tentasse não sofreria, se não arriscasse, não se queimaria com um colega de trabalho, se deixasse tudo porquê estava, tudo seria porquê sempre foi. Respirou fundo, deixou sem perceber as sobrancelhas murcharem com o próprio desvalor. Mais uma vez, por querer tanto a ponto de não suportar uma negativa, deixaria de lado o próprio libido em prol da normalidade. Seu estômago reclamou por isso e, para acalentá-lo, pegou mais uma cerveja e esperou todo mundo se organizar e concluir que era hora da saideira.

Beijos de despedida, rodinha se esvaziando. Era a hora do tchau. Chamou o Uber porquê se encomendasse a própria morte, toneladas nos dedos digitando sua localização. Enquanto aguardava a confirmação do carruagem no aplicativo, viu que o outro não estava fazendo o mesmo, só olhava para a rua porquê se buscasse seus pensamentos, porquê se estivesse tentando ver, lá na frente, o que faria daquela situação toda. “Vem comigo que te dou carona”. De repente ele percebeu que a frase ouvida saiu da própria boca, porquê num impulso, porquê se alguém que não ele tivesse tido aquela coragem de fazer o invitação. Mas era ele mesmo. Foi. Restava esperar a resposta do outro, que veio mais perto com aquela serenidade toda que lhe era peculiar e a voz grossa e empostada recusando a oferta com palavras que claramente denotavam não uma repudiação, só polimento mesmo. “Para com isso, vem comigo que eu te levo”, de novo a voz falou sem que ele tivesse plena certeza que era ele dizendo tudo aquilo. “A gente faz um caminho pra minha e a sua mansão. Se precisar, a gente racha o caminho, faz dois pagamentos”. Outra vez declinou com aquela instrução quase inerente à sua figura e foi logo que um ultimato foi oferecido, para espanto reciprocamente: “Bom, você só não vai comigo se não quiser”. Muito quando o carruagem chegou. Se dissesse não, seria sem volta. Entraram juntos no banco de trás e o carruagem arrancou.

Lá dentro, ainda receios. O silêncio do motorista e a incerteza se ia ocorrer um pouco. A angústia de pensar uma coisa, mas falar outra. Papinhos. O outro deixando a prosa ocorrer, deixando o anzol lá, boiando, sem morder. Mal sabia ele que o outro, de pesca, virou pescador. Enganchou com a mão a nuca dele, puxou tranquilo, porquê se fosse a coisa certa a ser feita, e o ósculo, o recostar, a barba do outro na boca dele. A respiração do outro se misturando com a dele. O gelo e o calor. O ar, muito dele, entrava no peito e não saía mais, porquê se estivesse se afogando. A boca do outro foi a salvação. Boca-a-boca. Boca na boca. Se pegaram loucamente. “Foda-se o motorista”, ele pensava, “foda-se o mundo e foda-se o tempo”. Já não tinha mais amplexo duvidoso naquele banco traseiro, zero de movimentos dúbios. Estava tudo posto. Zero mais seria o mesmo depois daquela viagem.

Eles já sairiam daquela carona não sendo mais as mesmas pessoas de antes da sarau naquela noite. Depois daquilo era só um querer mais, um mais querer, um muito querer sem termo. O carruagem foi chegando na mansão dele, para depois levar o outro. O carruagem freou. O silêncio. Ele. O outro. O motorista, inclusive o motorista, que deixou o veículo engatado e, ao tirar o pé do freio para sossegar, deu aquele solavanco que empurrou todo mundo pra frente. “A gente vai se ver de novo, né?”, ele soltou de sobressalto. “A gente ainda vai se ver muito”, disse o outro, com aquela voz grave e baixinha, antes de mais um ósculo, agora de despedida.

Às vezes, o paixão só pega no tranco.

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publicado em 22 de Junho de 2018, 00:00





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