Mulheres virtuosas do islã

Mulheres virtuosas do islã – PapodeHomem
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Mulheres virtuosas do islã

Quando vi o rosto de Suhayr pela primeira vez, não acreditei na sua formosura. A burca dava a ela um ar de profundo mistério e a única pista, um par de olhos verdes em longos cílios, era arrebatadora. E ela sabia disso.

Ilustração: Vitor Massao

Encontrei-a numa passagem da Universidade El Manar, em Túnis, capital da Tunísia. Suhayr e Sabirah estavam distribuindo materiais sobre o Islã e ficaram muito satisfeitas com meu interesse. Sabirah usava somente um hidjab, mas de Suhayr só eram visíveis seus olhos. O vento no mediterrâneo é intenso e corta o rosto, portanto confesso que o hidjab tem serventia prática e pode ser bastante confortável. Mas porquê se sente uma mulher usando uma túnica escura da cabeça aos pés debaixo do sol do meio-dia?

— Eu me sinto honrada, respeitada, protegida, valorizada – respondeu Suhayr em um inglês muito pronunciado.

Difícil crer que tendo de se esconder para se sentir respeitada ela se sentisse, de roupa, respeitada. Deixei que Suhayr e Sabirah brigassem pela minha atenção e, durante alguns dias, segui os passos de sua lógica para compreender do que se tratava aquele raciocínio. Ambas muito jovens, entre 20 e 22 anos, falavam sobre a vida e sobre relacionamentos com um aparente domínio. Suhayr, por exemplo, contou-me que os homens que encontram facilidades em uma mulher não a valorizam. Por isso é importante se saber antes de matrimoniar, mas se aproximar fisicamente somente posteriormente o casório. “So no heartbreaks!”

Lentamente e com cautela, comentei sobre os casos de mulheres muçulmanas do Marrocos e da Arábia Saudita que eram usadas por seus maridos ingenuamente para fins de tráfico de drogas e estavam presas no Brasil, abandonadas e envergonhadas, por quem a família não se movia em auxílio. E cheguei na minha própria história: mãe solteira. Relatei os motivos da separação e Suhayr ponderou: “was probably for the best…”

— O que o alcorão diz sobre isso?

— O alcorão tem uma sura inteira dedicada às mulheres, ensinando os homens a tratar e a cuidar delas. Não há zero parecido sobre os homens. O vaticinador se preocupava com as mulheres. Falam muito sobre a vexame sofrida pelas mulheres por seus maridos. Mas não são homens de fé de verdade. O alcorão diz que um marido que se zanga com sua esposa pode deixar de falar com ela por três dias. Se ela não reconsiderar sua teimosia, ele pode fazer isso. – tomou meu antebraço e, com dois dedos, deu um tapinha perto do pulso. – Esse é o pena que um varão pode dar à sua esposa. Zero mais. O casório é sagrado e divórcio é alguma coisa muito sério.

Perguntei se ela já havia se enamorado e Suhayr me conta que estava prometida e o noivado se desfez. A família dele foi contra a união posteriormente seis meses de namoro. Namoro… no termo deles. Seis meses de encontros com as famílias presentes, ela coberta de um lado, ele no sofá do lado oposto. Ainda assim, o desmanche do noivado trouxe sofrimento à Suhayr, o que ela entregou logo a Deus. Digo, Allah.

— Posso visitar a mesquita?

— É somente para muçulmanos… Mas se você estiver vestida… pode, sim.

Marcamos um encontro para dali a dois dias. Ambas me buscaram no hotel e me levaram para lojas da voga. Entramos em um lugar de roupas femininas e elas ficaram muito felizes em me dar um traje. Escolhi o mais simples e barato. Mas queria tudo. Elas se espantaram:

— Tudo? Quer usar… tudo? Você diz…

— Sim. Tudo.

Elas sorriram animadas:

— Linda! Vamos ensinar você!

É um longo processo: você já está vestida. Por cima, coloca uma túnica de tamanho único. É larga e longa. Para caminhar nas ruas é preciso segurar um pouco do tecido para não tropicar. Depois, um hidjab (cobrindo os cabelos), que também deve ser recluso da maneira correta. Por cima, um niqab (véu que deixa somente os olhos à mostra). “Oh! Você está tão angelical!” Para finalizar, luvas longas. Por incrível que pareça, as luvas me chocaram. Elas são o auge da perda de contato com o mundo exterior. Zero do que você por eventualidade toque, é provável sentir. O mundo de dentro e de fora da roupa se separam. O que se pode ver de dentro é em risca reta. Para olhar a guia ou o degrau, é preciso segurar o niqab com a mão, aproximando o tecido dos olhos para lucrar um pouco de dimensão. Segurar outra coisa além da roupa pode comprometer o caminhar. Consumir na rua é uma arte. Ofereceram-me um docinho e aceitei por cortesia. Daí pensei “e agora, o que faço com isso?”. Ensinaram-me: passa o rebuçado por debaixo do tecido e leva com sua mão de luva até a boca que você não sabe mais onde está exatamente.

No entanto, andando toda coberta, compreendi a explicação de Suhayr: “honrada, respeitada, protegida, valorizada”. Andando porquê Camila a leitura era rápida: cabelo pequeno = estrangeira. Sem véu = secular = fácil. Educada = prostituta. Nas mais diversas situações fui assediada: olhando coisas em lojas, pegando um táxi, caminhando na rua, dentro do hotel. Mas na medina especificamente (o sítio do negócio) era uma loucura. Vendedores pegavam na minha mão e, em vez de responder o preço do que eu estava perguntando, devolviam uma pergunta: “podemos passar esta noite juntos? Você está disponível?” Só com os olhos de fora, no entanto, caminhando pelos mesmos lugares, pedindo a mesma informação para os mesmos homens, senti-me “honrada, respeitada, protegida, valorizada”. Não havia assédio. Unicamente homens solícitos, gentis, reservados, sérios, dedicados e distantes. A atenção, em alguns momentos, era servil. Alguns homens se inclinavam ligeiramente na chegada e na despedida. Era uma reverência à pureza e rectidão que os tecidos sugeriam.

Os homens árabes são, de maneira universal, robustos e fortes, grandes, espaçosos, agressivos, traços marcantes, imponentes. Briguentos, gritam no trânsito, gritam para pedir uma oferta na medina, gritam quando se encontram. Nas músicas, gritam. A arte é dionisíaca, exterior, dramática. Não vi um varão beijando uma mulher em espaço público, mas muitos homens se cumprimentavam calorosamente com beijos no rosto, abraços e caminhavam de mãos dadas. De Túnis à Roma, duas horas em um avião com vários lugares vazios, os comissários tiveram de separar brigas três vezes, porque os homens estavam aos socos. São impacientes e voluntariosos numa cultura que os aprova e incentiva na soberania masculina. Homens e mulheres parecem estar ainda muito próximos de um tempo onde a formação grupal dava congruência às atividades de negócio e guerra, basicamente, sendo o casório o negócio feminino.

A formação em comunidade pode servir a dois princípios contraditórios: a proteção e a obrigação. A vocação do segundo é rasgar o primeiro. E no jogo cotidiano as mulheres estão particularmente fragilizadas. Minhas novas amigas logo passaram a me invocar de mana. Conversávamos sobre nossas vidas e coisas íntimas. Enquanto comíamos, oferecíamos a comida a qualquer estranho que se acercasse. É o que o vaticinador diz que deve ser feito. Dividir a comida. Minhas novas irmãs, as três, estudavam e eram cultas. Falavam inglês, sarraceno e galicismo. Estavam na universidade. Podiam escolher seus maridos. Especificamente naquele cenário, a religiosidade era compreensão influenciada pela família e sociedade, mas era também uma escolha pessoal. Nenhuma delas demonstrava qualquer incômodo pela teoria de se matrimoniar, ter filhos, estar sob julgo do pai e depois do marido. Pelo contrário. Fazia sentido. Era um desespero.

Pela primeira vez me ocorreu que uma mulher que se cobre o faz em um manobra de liberdade orientado por sua religiosidade. E há efeitos práticos a serem considerados: enquanto uma mulher ocidental de um Estado leigo, por exemplo, pode se despir em um manobra de liberdade, para lucrar numerário, renome, atenção masculina ou simplesmente porque se sente positivo e confortável para fazê-lo, uma mulher sarraceno pode se ocultar em um manobra de liberdade, para lucrar numerário, renome, atenção masculina ou simplesmente porque se sente positivo e confortável para fazê-lo. Não foram poucas as vezes que paramos na frente de joalherias e elas me mostraram o que gostariam de lucrar de seus noivos e de simular o que lhes parece ideal que um varão lhes provenha. Para olhos de Suhayr ou de Capitu, cobrir-se pode ser bastante propício.

As violações, mutilações, abusos, venda de meninas para casamentos negociados, estupro, escravidão, castigos, tortura e assassinatos de mulheres é muito mais fácil de se praticar em sociedades que privilegiam a gestão masculina no lar e fora dele, onde a legislação regula a transporte feminina pelo olhar de seu tutor, onde não existe punição normatizada aos homens que se excedem, onde as mulheres se deixam gerenciar inspiradas por sua ingenuidade, onde as instâncias legais são burocratizadas pelo revista da fé. Mas o roupa é que para eles também não é fácil. Husam, um jovem de 19 anos que conheci por lá, confessou-me estar enamorado por uma brasileira que, muito, não cobre a cabeça para frequentar o Rio das Ostras. Ela usa biquíni, o pai dela deixa, o Estado permite, tudo muito.

Para Husam, tudo muito vírgula. Mas ele está na Tunísia. Ela, no Brasil. Husam não faz todas as orações do dia, não fala frequentemente com Allah, não dispensa ter dúvidas sobre a religião, mas também não precisa dar satisfação sobre isso a ninguém. É varão, finalmente de contas. A família orienta, mas não serpente. Isso alivia as pressões?

— Não. Na verdade, estou protelando alguma coisa que… Muito, eu sei que qualquer dia eu vou ter que fazer o que eu tenho que fazer. Sei qual é o meu caminho. Sei quais são as escolhas certas e as erradas. Mas agora não quero pensar nisso.

Até perguntei quais são as escolhas certas e quais são as erradas. Mas quando ele tergiversou, entendi que o importante ali é que ele acredita que, do cima de seus 19 anos, já existem escolhas certas esperando que ele as faça. O caminho já foi definido. Ainda assim, Husam pode namorar muitas garotas. Uma pequena para se matrimoniar com Husam quando ele estiver pronto para a “escolha certa” deve ser virgem e piedoso. Antes do casório ele pode exigir um teste de integridade do hímen da prometida. Qualquer familiar de uma mulher pode exigir o revista. Em contrapartida, qualquer familiar do nubente pode pedir o revista de integridade do ânus. Sexo fora do casório é delito. Homossexualidade também. A comunidade que protege é a mesma que vigia.

Chegamos à mesquita e esperamos um pouco à porta. O horário de sinceridade estava próximo.

Tenho cá um pessoal interesse por espaços religiosos. Igrejas, mesas, terreiros, sinagogas, templos. Se a porta estiver ocasião eu vou. Mas a sensação da mesquita inspira alguma coisa dissemelhante de tudo o que eu já tinha visitado.

Uma mesquita é um espaço limpo.

Essa é a melhor definição que posso encontrar.

É limpa.

Não há poluição. Não há sugestões. Não há imagens de gente viva, morta, bicho, zero. Não há inscrições nas paredes, não há vitrais contando a história do vaticinador, não há esculturas. Existe o pavimento, o teto, grandes corredores fluídos integrando os espaços muito iluminados pelo sol de fora, tapetes de prece. Toda a simbologia e o rito que envolve o sagrado deve ser ensinado. Zero é presumível nem dispensa a iniciação por um praticante. As normas são rigorosas. Suhayr, Sabirah e uma novidade mana que se juntou a nós, Sumayyah, foram me guiando:

— Cá tiramos os sapatos. Guardamos cá. Todos esses livros são o alcorão. Tem em diversos idiomas. É só pegar o que te agrada para ler. Cá pegamos esses sapatos limpos. Cá colocamos. Cá tiramos novamente. Agora vamos nos lavar. Três vezes a mão direita. Três vezes a mão esquerda. Três vezes o braço até o cotovelo. Recta. Três vezes o esquerdo. Três vezes o rosto. Três vezes o nariz. Primeiro a narina direita. Três vezes. Depois a esquerda. Três vezes. Agora a boca. Três vezes. E as orelhas. Com esse dedo, primeiro a ouvido direita. Três vezes. Agora a esquerda. Vamos para o lava-pés. Primeiro o recta. Assim. Depois o esquerdo. Com esse dedo, você vai limpar entre os dedos. Três vezes. Primeiro o recta…

Suhayr ia falando e eu ainda estava perplexa com a formosura dela. Era a primeira vez que a via sem o niqab. Uma jovem linda, religiosa, piedoso, rigorosa. Uma mulher virtuosa do Islã, sem incerteza. Iniciava-me com alegria e método. A aproximação de Allah não pode ser vulgar. É preciso respeitar e merecer o sagrado. Ela deixava simples.

— Vamos colocar os sapatos e voltar lá pra cima.

Voltamos lá pra cima. Tiramos os sapatos novamente. Eu, impetuosa, corri feliz porquê uma gaiato para o peitoril do primeiro andejar ao ouvir o chamado e ver os homens entrando na secção de plebeu. Ela me puxou para trás com gentileza.

— As mulheres desconcentram os homens. Melhor não sermos vistas. Seja discreta.

— Mas eles não sabem que estamos cá?

— Essa secção é reservada para as mulheres. Eles sabem disso. Mas se há alguém cá, se não há, quem está, zero disso precisa ser revelado.

Uma religião de muitos véus, portanto.

Puxaram um lindo tapete e me ensinaram a prece.

— Senta. Não. A perna assim. Os pés assim. Cabeça ao pavimento. Não. Cotovelo assim. Pés assim. Cabeça assim. Volta. Mais uma vez. Volta. Mais uma vez. Volta. De pé. Mão assim. Faz assim. Agora assim. Cabeça ao pavimento. Olha o pé! Cotovelo. Isso. Sobe. Desce. Sobe. Desce outra vez. Sobe de novo. Agora você pode manifestar a Allah qualquer coisa que esteja em seu coração. Tem três segundos. Desce. Cabeça ao pavimento. Agora…

— Impossível me lembrar de todos os passos – falei. – São muitos!

— Tudo muito. Podemos te passar alguns vídeos com explicações detalhadas. Aos poucos você aprende. Temos até aplicativos para te lembrar o horário de todas as orações.

E as orações coletivas tiveram início.

Fiquei muito perdida.

Passei tempo demais no pavimento, corri pra levantar, perdi o ritmo de descair e fiquei sozinha em pé, comecei a manifestar a Allah o que estava no meu coração e já interromperam com palavras de ordem e aí tinha que descair de novo e eu nunca sabia se era só pra ajoelhar ou se era pra colocar a cabeça ao pavimento. Mas finalmente reconheci alguma coisa ali. A voz da prece em uníssono. O quina sarraceno me lembrou o latim gregoriano, o guarani dos mbya. Finalmente uma inspiração conhecida. É porquê dançar uma outra dança da chuva. Mas a intenção é a mesma: chuva.

Reconheci Allah naquelas terras secas.

É o mesmo varão. A mesma mulher.

Levei a cabeça ao pavimento e não me preocupei em levantar na hora certa.

Sorri.


publicado em 27 de Janeiro de 2016, 00:00





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