por que não?

por que não? – PapodeHomem
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por que não?

POV: point of view, um dos gêneros da pornografia que se baseia no ponto de vista de quem está filmando. 

Esses dias, em uma conversa com meu companheiro, comecei a questionar sobre a falta de representação da perspectiva feminina dentro do cenário pornográfico. É simples que o grande problema da indústria pornográfica é o excesso de teor performático e mecânico no sexo, insensível e não condizente com a prática do sexo em si. Consumimos uma pornografia agressiva, pesada, que objetifica as mulheres e centraliza o prazer no varão. Os filmes, em sua maioria, colocam a mulher numa postura de submissão e dor.

As mulheres quase nunca recebem sexo verbal; os homens sim, em todos, durante vários minutos, e de forma extremamente agressiva. O negócio é fazer com que as atrizes chorem, fiquem borradas de maquiagem e engasgando (com ânsia de vômito) pela força com que o pau é enfiado em suas gargantas. Nunca vi um vídeo em que a mulher filma o faceta fazendo sexo verbal, mostrando a perspectiva dela, do que ela vê quando está recebendo a chupada. Mesmo nos casos de “mistress” (aqueles vídeos de fetiche em que a mulher faz uma dominadora), a câmera fica no contexto universal e mostra a visão que o varão tem da situação. E não a mulher. Nunca a mulher.

Nós criamos a pornografia para os homens consumirem e fomos modificando-a da mesma maneira que modificamos as mulheres expostas da mídia, para que se aproximassem cada vez mais de uma perspectiva agressiva e irreal, que satisfaz uma expectativa platônica do que é o sexo e não condiz com a verdade.

Depois de tudo isso, não fica zero estranho saber que milhares de mulheres não atingem o orgasmo durante o sexo com seus parceiros. Que vários homens não gostam de realizar sexo verbal, sentem nojo, ou acham sem perdão. Mas gostam de recebê-lo, e fazem questão de que isso aconteça durante suas práticas sexuais.

Mulheres também gostam de olhar. E lucrar um verbal também

E isso porque criamos uma cena exclusivamente masculina nos filmes pornôs, que vende uma proposta perigosa para os homens que a consomem. E hoje, em uma sociedade que não incentiva o autoconhecimento, isso é extremamente perigoso. É simples que agressores não precisam de pornografia para se tornarem violentos, porém, se há tanta dificuldade de notícia entre os homens e as mulheres – vide a quantidade de teor em revistas femininas que tenta interpretar os códigos e sinais daquilo que os homens querem expor para as mulheres que se sentem inseguras para compreender o significado do comportamento masculino – nós fragmentamos o sexo e, sem a notícia, isso só pode piorar.

Estamos começando agora – e de forma muito lenta – a incentivar que as mulheres se conheçam fisicamente, que se masturbem, que se explorem. Enquanto os meninos, segundo as pesquisas, começam a consumir pornografia com 10 anos de idade.

As mulheres vivem relações em que não atingem o orgasmo e se colocam uma vez que culpadas por isso. E não é que a culpa seja dos homens, mas se a mulher não consome pornografia com a qual se identifica, não se masturba e se sente insegura em relação ao seu corpo, vai ser difícil receber sexo verbal do parceiro e reagir de forma segura e optimista enquanto isso acontece.

E uma vez que proceder, se existe a vontade de se autoconhecer, mas não há incentivo extrínseco a isso? Acabamos consumindo a pornografia feita por e para os homens e, dessa forma, o sexo para nós preconiza o muito estar e o prazer desses homens. E não o das mulheres. Não sei uma vez que é para a maioria, mas para mim, sexo bom é bom para os dois (ou três, quatro). E muitas vezes o que escuto dos meus amigos homens é que, para eles, a noite foi ótima, o ósculo deu manifesto, o sexo foi legítimo, tudo ok. Eles gozam. 

E as mulheres?


Bom… 

Muitas vezes as mulheres do meu convívio nem percebem, mas acabam achando a noite boa pelo que o varão transpareceu descobrir daquilo. Se para ele foi gostoso, para mim também. Se ele teve prazer, eu também.

Mas será que eu tive?

O prazer fica tão concentrado que a maioria quase nem sabe mais o que realmente gosta. E sexo bom acaba sendo sexo em que existe intimidade. Só depois de anos juntos que é provável realmente saber o corpo do outro. Concordo que a intimidade auxilia e muito nesse processo de intimidade sexual, mas será que seria necessário tanto envolvimento emocional para que uma noite de sexo fosse satisfatória pra ambas as partes?

Lembro de um stand-up do Louis C.K. em que ele diz que no termo do sexo os homens reclamam que as mulheres são carentes porque querem permanecer abraçadas e trocar carinho, quando na verdade o que as mulheres sentem é tesão, porque elas não gozaram. E, inclusive, ele brinca que se as mulheres gozassem, elas com certeza também dormiriam depois do sexo e também não gostariam de permanecer abraçadas ou serem tocadas. Porque – e isso já é uma leitura minha – sexo nós até podemos fazer com várias pessoas, mas não é com todo mundo que depois se dorme de conchinha.

A sexualidade é um poder e anular isso em alguém é enfraquecer essa pessoa. Quando nós colocamos os homens uma vez que seres sexuais e as mulheres uma vez que objetos, consideramos que exclusivamente um dos envolvidos é o sujeito, enquanto o outro está ali para oferecer, para servir, para deleitar. Em segundo projecto. O prazer fica fragmentado se somente uma das partes o vivencia. E dessa forma todo mundo perde. Porque isso eu posso prometer: é muito mais prazeroso quando a gente vê e sente o outro sentindo prazer também.

Nesses casos, a insistência, feita da maneira certa, respeitando o espaço da pessoa que está com você na leito, é importante. Se você tentar fazer sexo verbal na mulher e ela não deixar, você não deve desistir facilmente. Simples que não estou falando de insulto, nunca – em situação alguma – você deve forçar alguém a receber qualquer incentivo sexual que essa pessoa não queira. No entanto, se impedir de tentar tornar a situação mais confortável para o outro é desabar na zona de conforto e na indiferença (disfarçada de saudação).

A diferença é que a maioria das pessoas que se relaciona acaba tendo mais tempo e intimidade pra explorar isso, e o sexo fica mais gostoso assim. Mas e as pessoas que não querem se relacionar, mas ainda assim viver o sexo que seja gostoso? Ou, outrossim, que tal tentarmos estimular práticas sexuais saudáveis em que a mulher não precise sentir que tudo foi em vão e que seria melhor ter pretérito a noite sozinha?

Grande secção dos meus amigos homens cis-heterossexuais consomem pornografia amadora. E eu acho isso positivo. Eles querem um teor com o qual se identifiquem. Eles querem um teor que se assemelhe a prática do que eles vivem enquanto sexo.

E nós também.

Logo partimos para a desconstrução e reconstrução da teoria do sexo. E das relações de modo universal. Se nós mudarmos a relação das pessoas com o sexo, nós transformamos as relações. Quem se conhece sabe o que gosta e sabe o que quer. E se permite também desvendar mais com o outro.

Não é fácil nos autoconhecer – vide a quantidade de pessoas que tem pânico de fazer terapia. Agora imagine fazer terapia tentando impressionar a pessoa que o analisa de que você é muito bom e ainda estar sem roupa durante o processo?

Pois é esse o sexo que temos oferecido às mulheres. Desconfortável, insensível e impessoal. 

E pior: é o que temos ensinados aos homens que é bom.


publicado em 15 de Junho de 2015, 00:00





Fonte: papodehomem.com.br

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