Quando a gente reza pra alguém mudar, mas não muda zero

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Quando a gente reza pra alguém mudar, mas não muda zero

Acostumou-se a despertar sem se mexer. Os olhos abriam e o corpo ainda permanecia imóvel.

Enquanto as pupilas e a íris iam se acostumando com a ingresso de luz, aproveitava para enxergar o entorno. Criado-mudo, o livro em cima dele com um tufo de lencinho de papel por entre as páginas que ela usava porquê marcador, o edredom que formava um pequeno morro empurrado com os pés de quando ela se levanta com pressa. Mais uma vez, parecia que zero tinha mudado. 

Ouviu o estrondo do chuveiro e percebeu a porta fechada. Ele odiava quando ela se banhava trancada e deixava o banheiro pleno de vapor e com aquela quentura insuportável. Ele também não gostava que ela tomasse banhos muito quentes. Já tinha uns dias que praticava esse manobra mental de narrar repetições no comportamento dela. Tinha se enamorado à primeira vista, quando a viu entrando no mesmo bar que ele para comprar cigarros. O jeito com que ela contou as moedas, separando-as habilmente com os dedos chamou a atenção dele e, depois, todo o resto da formosura dela. Ficaram naquele dia e já estavam há dois anos namorando.

Mas o portento que ele viu na prontidão dela gradativamente foi se transformando em aperto, tribulação. Acontece que a ligeireza com que ela lidava com as coisas da vida acarretava em impaciência, coisas feitas pela metade, empolgação inicial e marasmo ulterior. Ele, tão oferecido aos mimos das pequenas coisas, se sentia atropelado pelas decisões de supetão que ela tomava, com a bagunça que ela deixava, com o ritmo sempre apressado de passar os dias. Até o sexo, na cabeça dele, era corrido e pesado, uma puxação pedindo mais pra dentro e mais potente, porquê se um incômodo tomasse conta dela por não sentir a penetração feita com mais e mais ímpeto quando ele só queria respirar e se deixar levar pelos sentidos.

E daí acordava sem trespassar do lugar e ia enumerando as coisas que era a rostro dela, que ela sempre fazia. Isso porque, nas noites anteriores, ele rezava para que ela mudasse. Pedia em conversas com os santos ou o cosmos, expunha suas preocupações e ponderava equilíbrios, buscava  nessas preces soluções plausíveis e tangíveis que levassem ambos a uma evolução do relacionamento. Mas era só debutar o novo dia e logo de saída ele caçava as velhas mania dela, porquê um inquisidor acumulando os pormenores para acusá-la de bruxarias e outro qualquer malquerer. 

Quando ela saiu enrolada em uma toalha e trazendo consigo aquele bafo que deixou o espelho todo embaçado, ele fechou rapidamente os olhos e fingiu chegar do sono só naquele momento. Se espreguiçou, arrumou a leito para que ela se inspirasse no zelo dele e, enquanto ela amassava os cabelos ainda úmidos buscando lucrar volume, se virou para ele perguntou: “Tá tudo muito? Cê tá com uma rostro meio estranha”. 

Era a hora.

“Tá tudo muito”, respondeu ele porquê se a voz entrasse para dentro da gorgomilos em vez de trespassar pela boca, “eu só acordei com bastante inópia”, finalizou levantando a cabeça na direção dela e botando na rostro um sorriso amassado. “Ah, logo deixa comigo que eu vou te ajudar agora! Vou botar o moca na cafeteira”, ela disse antes de dar um ósculo no rosto dele e ir para a cozinha nua, deixando a toalha molhada jogada no soalho.

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publicado em 07 de Julho de 2017, 00:00





Fonte: papodehomem.com.br

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