Quando o termo nunca é superado

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Quando o termo nunca é superado

Sem tirar nem por. A cada dia ela ficava mais a faceta da mãe, o rosto fino de queixinho pontudo, a boca grande demais, linda e enxurrada de ranhuras. Tinha o mesmo nariz largo de buracos muito pequenininhos, parecia estar enfezada todo o tempo com os cabelos ondulados sempre jogados para os lados com as mãos. Até essa mania era herdada, a mãe adorava chacoalhar aquelas mechas que misturava um marrom e dourado para lá e para cá.

Olhar uma era ver a outra.

Isso tudo o deixava assustado por demais, tinha vezes que precisava procurar um lugar para se sentar, as pernas com joelhos afrouxados, flácidas as duas, ele sem um mínimo de controle emocional para dar a ordem de pararem quietas e rijas, eretas. Sua filha ainda era uma pré-adolescente, usava jeans e camiseta preta com camisa de flanela por cima, mas quando a encarava e ela correspondia com aquela austeridade não conciliável com sua normalidade juvenil, quando o preto dos olhos dela ocupavam quase tudo nos olhos, restando unicamente uma beiradinha do verdejante evidente nas bordas, sim, da mãe, ele era maquinalmente sugado para momentos no pretérito que há muito não valia a pena recordar.

Estavam separados já há quase cinco anos, a mãe da moçoila e ele, um conúbio conturbado seguido de um período triste em que ele embarafustou-se na vida íntima dela que já não lhe dizia reverência. Um novo namoro da ex-esposa e as camisas molhadas com o pranto no trabalho começaram a reunir. Recuperou-se com a única força que poderia tirá-lo daquela cova que era o paixão pela filha. Era o que restara daqueles tempos, o indumentária irrefutável do melhor paixão consumado que ele haveria de ter.

E o tempo passou. A moçoila tinha oito anos quando se separaram e agora passava as tardes de seus quase treze esparramada no sofá com os fones de ouvido falando com amigas sabe-se lá de onde, lendo textos sabe-se lá de qual estirpe de vagabundo que ganha moeda com Internet. E ele lá, cavando mais e mais, dia em seguida dia, os dedos roxos, as unhas recheadas com terreno de terreno moribundo. Ele fitava a correntinha em volta do pescoço longo da pequena, idêntico ao da esposa, o pingentinho de coelhinho, bicho preposto da ex.

Consumido pelas recordações, já não olhava para onde os olhos apontavam. Memória detrás de memória, abraços antigos seguidos de esporros seguidos de tapas e dores nas costas de ter que dormir no coche ou no sofá. Os apelos para não terminarem tudo, as roupas jogadas no porta-malas, a confederação arremessada em sua direção. Os cabelos jogados para trás e para os lados com as mãos, o namorado novo, o desprezo, o “eu te perdoo”, o “não” depois do último “volta pra mim”.

Arrancou-se no sobressalto da poltrona, levantou a moçoila e desceu três tapas na bunda dela. “Por que você não me ouve quando eu falo com você! Era só você fazer o que eu te peço e zero disso ia intercorrer! Eu sempre te amei, porra! Eu sempre te amei!”. Ambos pararam com os olhos arregalados. “Você está batendo em mim ou na mamãe?”, perguntou a juvenil com toda a impáfia que podia.

Ele não sabia responder.

O paixão faz a gente exaltar.

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publicado em 15 de Setembro de 2017, 00:00





Fonte: papodehomem.com.br

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